Cenário
Parte dos moradores da Estrada do Engenho duvidam do avanço das cheias
Na localidade da Balsa, várias pessoas seguem com a rotina normal mesmo residindo em uma área de alto risco para inundações
Foto: Jô Folha - Na Estrada do Engenho, construção de diques improvisados para conter o São Gonçalo é o contraste com a movimentação rotineira de moradores
Em contraste com as ruas vazias do Centro de Pelotas na manhã deste domingo (12), na localidade da Balsa a movimentação era intensa. No entanto, não era de veículos e pessoas motivadas a deixar a área considerada de alto risco para inundação, como o esperado, mas sim de curiosidade em torno da contenção com sacos de areia construída para barrar o canal São Gonçalo. Residindo a poucos metros da água, alguns moradores seguiam com as atividades calmas de um final de semana, como tomar um mate sentados em frente às suas casas e fazer comprar no mercadinho próximo para o almoço.
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Em paralelo a isso, o canal atingia o seu maior nível desde o início das medições, 2,80 metros, a oito centímetros de alcançar a cota de inundação da enchente que atingiu o município em 1941 (o número subiu depois para 2,83m). Em cima do dique improvisado, mesmo com chuva, pessoas estavam observando as águas movimentadas do São Gonçalo, mas não com o propósito de constatar o aumento da cheia e procurar o mais rápido possível um local seguro, e sim para fazer vídeos e fotos.
Com a porta aberta da casa, localizada em frente à contenção, uma das moradoras da Estrada do Engenho tomava café da manhã com familiares e observava a movimentação na rua. Andriele Jara conta que não acredita que a água vá avançar o suficiente para adentrar na moradia. “Estamos vigiando, eu estou tranquila por enquanto. Acho que não vai passar [do dique]”. Na noite anterior, para conscientizar sobre os perigos que a área de risco apresenta às pessoas da região, a Defesa Civil também conversou com a mulher. "A gente disse que não [iriam sair], até porque a gente tem embarcação, qualquer coisa a gente vai para lá. Eles pediram para colocar o paninho azul”, conta, citando o código de comunicação das forças de segurança, que indica que o morador não quer sair de casa.
Diferente de pessoas que residem em outros locais de risco, como nas Doquinhas, Andriele diz que não teme saques e que isso não é um fator que contribui para a decisão de continuar em casa. “Nem levantei nada”, diz sobre os móveis, caso a água suba. Na residência, caso precisem sair com urgência, são quatro pessoas, cinco cachorros e dois gatos.
Próximo dali, outro morador observava do pátio o vai e vem de pessoas e carros da Guarda Municipal. Residente da Balsa há 55 anos, Florosvaldo Vitaca diz que já presenciou diversas enchentes, mas que em nenhuma a água entrou na sua casa. Diante disso, ele está cético que dessa vez isso possa acontecer, mesmo reconhecendo que em Porto Alegre a inundação foi sem precedentes. “É uma calamidade pública, a gente não esperava nunca que ia acontecer isso, mas acho que depois de segunda as coisas se ajeitam”. O aposentado relata ainda que nunca tinha testemunhado uma movimentação tão rápida para a construção de um dique.

As duas irmãs, que são também suas vizinhas, foram para a casa de familiares. Mas Florosvaldo diz que não irá sair. “Vou ficar em casa. Tenho que cuidar da minha casa, as das minhas irmãs aqui do lado. Eu tenho barco ali atrás e preciso ficar de olho”. Além de afirmar que confia em Deus, ele também argumenta com a sua percepção dos motivos que impediriam que ocorra uma enchente grave. “Não tem morros que despejem águas, a água vai vir lentamente, vai dar tempo das pessoas fazer o que tiverem que fazer e não vai ter mais nada além disso aí”.
Com a sua experiência de morador da Balsa, o aposentado conta que na movimentação constante de pessoas na Estrada do Engenho, ele tenta acalmar as pessoas que estão aflitas. “Estou crendo muito no Deus que eu sirvo”.
Animais acorrentados
Nas poucas casas que estavam totalmente fechadas, um fato chama a atenção: cachorros bravos estão acorrentados e latem incessantemente com a menor aproximação de qualquer pessoa nos portões. A Prefeitura de Pelotas e a Defesa Civil ressaltam que é um dever dos tutores sair com seus animais de estimação, não deixando nenhuma vida para trás durante o processo de desocupação.
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